Identidade


animação por Deco Farkas








Os artistas brasileiros radicados na França, Angela Detanico e Rafael Lain trabalham juntos desde meados da década de 90, período de tempo quase tão antigo e profícuo quanto o da parceria que estabeleceram com o Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil. A dupla, que já apresentou trabalhos na Bienal de Veneza (2007), na Bienal de São Paulo (2004, 2006 e 2008) e na Bienal de Havana (2009), foi responsável pela identidade visual de cinco edições do Festival: do 13º ao 17º (de 2001 a 2011). Agora, os artistas voltam a assinar a direção de arte na 19ª edição. Partindo de questões relacionadas à produção artística do Sul global exploradas pela curadoria, como identidade, memória e iconografia, eles conceberam uma proposta visual para o Festival que remete a alfabetos originários da África e ao mito sobre o nascimento da escrita.

A partir da nomeação do primeiro convidado do 19º Festival, um dos mais reverenciados artistas contemporâneos da África, o malinês Abdoulaye Konaté, Detanico e Lain iniciaram uma pesquisa que se voltou aos inúmeros sistemas de escrita originados no continente africano – de alfabetos e silabários ancestrais às mais recentes proposições de preservação da tradição oral. Uma das referências iniciais dessa pesquisa foi a obra de Frédéric Bruly Bouabré (1923-2014), artista da Costa do Marfim que integrou a 55ª Bienal de Veneza (2013), a 30ª Bienal de São Paulo (2012) e a Documenta 11 (2002). Na década de 1950, Bruly Bouabré criou um extenso silabário pictográfico com mais de 400 caracteres na intenção de que a história de seu povo, transmitida oralmente na língua bété, pudesse ser registrada. A partir desse trabalho, a dupla inciou uma pesquisa sobre sistemas de escrita na África que nos levou a outros alfabetos criados recentemente para línguas de tradição oral, como o kikakui, na Serra Leoa, e o mandombe, no Congo. Para além dos jovens alfabetos africanos, os antiquíssimos sistemas de escrita concebidos no norte da África também estão presentes na pesquisa da dupla, como o alfabeto tifinagh, utilizado para escrever as línguas berberes do norte, e o ge’ez, que sobreviveu à língua falada na Etiópia e na Eritreia.

O diálogo Fedro, de Platão, também serviu de base para a pesquisa de Detanico Lain. O filósofo grego aborda o mito da origem da escrita e afirma que os caracteres gráficos foram inventados pelo deus egípcio Tauthos, pai dos números, do cálculo, da geometria e da astronomia. Sobre a escrita, Tauthos teria afirmado: “Eis uma arte que tornará os egípcios mais sábios e os ajudará a fortalecer a memória, pois com a escrita descobri o remédio para a memória”.

Com essas referências, a dupla criou a tipografia Tautográfica a partir de elementos gráficos comuns aos alfabetos estudados, propondo que os caracteres funcionem ao mesmo tempo como imagem e texto, criando uma espécie de estranhamento com a linguagem. Desta forma, é oferecida aos leitores a possibilidade de redescoberta dos desenhos das letras – num primeiro momento ilegível, a leitura se desvela para quem dedicar o tempo necessário a decifrá-la. Tautográfica será aplicada junto à fonte Fedra, criada em 2001 pelo designer Peter Bilak. Desenvolvida também para os alfabetos árabe, devanágari e armênio, o desenho dessa fonte tipográfica pretende humanizar a mensagem e proporcionar uma boa leitura tanto em meio impresso quanto no computador. Com uma paleta em tons terrosos, que variam a partir das obras dos demais artistas convidados do 19º Festival, a identidade visual criada pela dupla Detanico Lain será desdobrada na sinalização do espaço expositivo, nas publicações, peças gráficas e no site do 19º Festival, aplicadas pelas designers Carla Castilho e Lia Assumpção (Janela Estúdio) e Lila Botter (Videobrasil), e pelo artista Deco Farkas.

Sobre os artistas

Angela Detanico e Rafael Lain são, respectivamente, linguista e tipógrafo de formação. Trabalhando em colaboração desde 1996, os dois começaram a desenvolver ideias de escrita, leitura e tradução, seja de um meio para outro, seja de um código para outro, interessados nos limites da representação do tempo e do espaço. A dupla desenvolve trabalhos que cruzam poesia, som e imagem, atuando tanto em design, quanto no cenário da arte contemporânea. Tipografia, design gráfico, vídeo, arquitetura, internet e CD-ROM são alguns dos formatos já contemplados pela dupla, que foi objeto do primeiro FF>>Dossier publicado pelo Videobrasil, com entrevistas e ensaios feitos pelos pesquisadores Giselle Beiguelman e Eduardo de Jesus.

Além de terem sido responsáveis pela identidade visual do Festival de 2001 a 2011, também foram membros do conselho de programação de duas edições (2001 e 2003). Eles ainda realizaram performances que hoje têm registros no Acervo Videobrasil (Entre, Dobra 24.9.2003, Sound Waves for Selected Landscapes). Angela Detanico e Rafael Lain foram convidados especiais dos Programas Públicos do 18º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (2013), que comemorou os 30 anos do Festival com uma série de encontros ao longo da programação. Ao lado de outros artistas e designers que contribuíram com a identidade do Festival, como Kiko Farkas, Bill Martinez, Daniel Trench e Celso Longo, a dupla abordou, no encontro “Design, Conceito e Espaço”, o perfil diferenciado do Festival em relação à criação de suas propostas gráficas, fruto da aproximação entre os designers e a curadoria – a identidade visual do Festival reflete e reforça as questões que surgem a cada edição.

A dupla vencedora do Nam June Paik Award de 2004 – uma das mais importantes premiações de arte eletrônica do mundo – já apresentou trabalhos na 52ª Bienal de Veneza (Itália, 2007), em três edições da Bienal de São Paulo (2004, 2006 e 2008) e na 10ª Bienal de Havana (Cuba, 2009). Detanico e Lain participaram da Media City Seoul (Coreia do Sul, 2004) e da Trienal de Echigo Tsumari (Japão, 2006). Exposições individuais recentes aconteceram na Fundação Iberê Camargo (Porto Alegre, Brasil, 2013), com curadoria de Solange Farkas, fundadora e diretora da Associação Cultural Videobrasil, no Museu Coleção Berardo (Lisboa, Portugal, 2013) e no Kyoto Art Center (Quioto, Japão, 2013). Seus trabalhos foram apresentados recentemente no Musée d'Art Contemporain de Lyon (Lyon, França); no Wexner Center for the Arts (Columbus, EUA); no Astrup Fearnley Museet (Oslo, Noruega).